Ananda Coomaraswamy: DA PERTINÊNCIA DA FILOSOFIA
Por isso vamos continuar dando ênfase à distinção que pode ser feita entre religião e metafísica com relação a uma sabedoria que é uma em si e que em qualquer caso está basicamente dirigida a coisas imateriais ou, falando racionalmente, a coisas "irreais" (v. Sensibilidade Raciocínio Intelecção). Falando generalizadamente, a distinção é a que existe entre o cristianismo e o gnosticismo, entre as doutrinas Sunni e Shi'a, entre Ramanuja e Sankaracarya, entre a vontade e o intelecto, entre a participação (bhakti) e a gnose (jnana) ou entre o conhecimento de alguma coisa (avidya) e o conhecimento como conhecimento (vidya). No que diz respeito ao Meio há uma distinção entre consagração e iniciação e entre integração passiva e ativa; e no que se refere ao Fim, há uma distinção entre assimilação (tadakaratá) e identificação (tadbhava). A religião manda que seus adeptos sejam aperfeiçoados; a metafísica manda que percebam a própria perfeição, que nunca foi infringida na prática (até Satanás, virtualmente é McGinn Anticristo Alterego, pois caiu em graça, e não em natureza). Do ponto de vista da religião, o pecado é moral; do ponto de vista da metafísica, é intelectual (na metafísica o pecado mortal é uma convicção ou uma asserção de autossubsistência independente, como no caso de Satanás, ou de inveja do que os outros conseguiram espiritualmente, como no caso de Indra).
Em geral a religião provém da existência prática (karya-vastha) do Primeiro Princípio, sem considerar a sua existência em potencialidade (karanavastha), enquanto a metafísica trata da Identidade Suprema como uma unidade em que não se pode separar a potencialidade da ação nem o escuro da luz, argumentando que essas coisas também podem e devem ser consideradas separadamente quando procuramos entender como funcionam em identidade nessa Identidade ou n'Ele. Com isso a religião pressupõe um aspecto de dualidade 1
; por exemplo, quando postula uma matéria primária, potencialidade ou não-existência bem afastada da realidade de Deus e não leva em conta a presença principal dessa matéria primária no Primeiro (ou melhor, "do" Primeiro), como sua natureza 2
.
[...]
Pretendíamos discutir mais extensamente as diferenças entre a religião e a metafísica, mas preferimos concluir esta seção com uma asserção da identidade final de ambas. Consideradas como Meios ou práxis, ambas são meios de conseguir a retificação, regeneração e reintegração da consciência do indivíduo, que é aberrante e fragmentada; também são meios de conceber a finalidade suprema do homem (purushartha) como se consistisse no fato de o indivíduo perceber todas as possibilidades que estão inerentes na sua própria existência; ou podem ir mais adiante e ver uma meta final na percepção de todas as possibilidades de existir em qualquer modo e também das possibilidades de não existir. Para os neoplatônicos e para Santo Agostinho, assim como para Erigena, Eckhart e Dante e para seres como Rumi, Ibn Arabi, Sankaracarya e muitos outros asiáticos, as sensações religiosas e intelectuais estão entrelaçadas de forma muito íntima para que possam ser separadas completamente; por exemplo, quem suspeitaria que as palavras "como pode Aquele que os Que Compreendem denominam Olho de todas as coisas, Intelecto dos intelectos, Luz das luzes e Onipresença numinosa, como pode Ele ser outra coisa senão a finalidade última do homem" e "Fostes tocado e possuído! há muito tempo estais separado de mim, mas agora Vos encontrei e jamais Vos deixarei ir!" não fossem tomadas de uma fonte teística, e sim de hinos puramente vedânticos dirigidos à Essência (atman) e ao Brâmane "impessoal"!
René Guénon: SINCRETISMO
Decíamos hace un momento que no sólo es inútil, sino a veces incluso peligroso, querer mezclar elementos rituales pertenecientes a formas tradicionales diferentes, y que, por lo demás, esto no es verdad únicamente para el dominio iniciático al cual lo aplicamos aquí en primer lugar; en efecto, la cosa es así en realidad para todo el conjunto del dominio tradicional, y no creemos que carezca de interés considerar aquí esta cuestión en su generalidad, aunque eso pueda parecer alejarnos un poco de las consideraciones que se refieren más directamente a la iniciación. Como la mezcla de la que se trata no representa más que un caso particular de lo que se puede llamar propiamente «sincretismo», deberemos comenzar, a este propósito, por precisar bien lo que es menester entender por eso, tanto más cuanto que aquellos de nuestros contemporáneos que pretenden estudiar las doctrinas tradicionales sin penetrar en modo alguno su esencia, y sobre todo aquellos que las consideran desde un punto de vista «histórico» y de pura erudición, tienen frecuentemente una fastidiosa tendencia a confundir «síntesis» y «sincretismo». Esta precisión se aplica, de una manera completamente general, tanto al estudio «profano» de las doctrinas del orden exotérico, como a las del orden esotérico; por lo demás, la distinción entre las unas y las otras raramente se hace ahí como debería serlo, y es así como la supuesta «ciencia de las religiones» trata una multitud de cosas que no tienen nada de «religiosas», como por ejemplo, así como ya lo indicábamos más atrás, los misterios iniciáticos de la antigüedad. Esta «ciencia» afirma claramente su carácter «profano», en el peor sentido de la palabra, al proponer como principio que aquel que está fuera de toda religión, y que, por consiguiente, no puede tener de la religión (y diríamos más bien de la tradición, sin especificar ninguna modalidad particular de la misma) más que un conocimiento completamente exterior, es el único cualificado para ocuparse de ella «científicamente». La verdad es que, bajo un pretexto de conocimiento desinteresado, se disimula una intención claramente antitradicional: se trata de una «crítica» destinada ante todo, en el espíritu de sus promotores, y menos conscientemente quizás en aquellos que les siguen, a destruir toda tradición, puesto que, expresamente, no quieren ver en ella más que un conjunto de hechos psicológicos, sociales u otros, pero en todo caso puramente humanos. Por lo demás, no insistiremos más sobre esto, ya que, además de que ya hemos tenido bastante frecuentemente la ocasión de hablar de ello en otras partes, al presente no nos proponemos más que señalar una confusión que, aunque muy característica de esa mentalidad especial, evidentemente puede existir también independientemente de esta intención antitradicional.
NOTAS: